Orgias na academia talvez sejam bastante comuns para quem já é versado em levantamentos de peso e corridas na esteira. O espaço físico afinal conspira: objetos rígidos e fálicos ao redor, espelhos gigantescos e generosos para onde quer que se olhe, música estimulante e vigorosa ao fundo, e gemidos, sussurros e pancadas expelidos de corpos suados e convidativos que extrapolam seus limites olímpicos. Além disso, as possibilidades de improviso sexual são infinitas – imediatamente uma tábua de abdominais se transforma em confortável leito para um gangbang; um haltere num destemido consolo; e, por que não, uma corda de alongamento em prático auxiliar sadomasô.
Contenha sua ereção. Mesmo porque, divago talvez em minhas fantasias obscuras. Academias são locais assépticos, descontextualizados. Pelo menos as de musculação. Única e exclusivamente servem para incremento ou alienação da condição humana e nada mais. Tal qual uma rodinha de hamster.
Já oficinas mecânicas gritam sexo logo na pronúncia. Geralmente ostentam em sua fachada um nome que exala virilidade e abrigam em sua folha de pagamento funcionários sempre de camisetas brancas sob um macacão relativamente encardido. A sensualidade brota. Basta entrar com seu carro para uma troca de óleo, e pronto: a graxa rapidamente se converte num eficiente lubrificante, e o capô num ágil substituto de apoio para as mãos – ou pernas. Sem falar, é claro, no potencial e inesperado uso do macaco…
Espere. A imaginação, mais uma vez, foi longe demais. Se há alguma sordidez e devassidão no universo das oficinas mecânicas, elas ficam restritas aos calendários de mulheres nuas e gostosas de 1980. Sim, você leu direito: mulheres e gostosas. Nuas. De 1980. Além do que, existem coisas mais urgentes para um mecânico se preocupar, como sabotar pastilhas de freio ou evitar que o compressor de ar exploda a qualquer momento. E a sodomia de fregueses assanhados definitivamente não encontra espaço entre uma atividade e outra.
Agora, um quartel-general sim é o antro da luxúria. Mais do que um mero ritual, é natural que dezenas de homens amontoados num dormitório sem ventilação se amassem no apagar das luzes – ou no acender delas. Uma continência mal feita, um gesto indisciplinado, uma famigerada e piegas queda de sabonete, e lá estão nossas forças armadas pagando por seus erros e alimentando nosso arsenal de trocadilhos e fetiches. Cabos e cadetes fazem a festa da semântica; fuzileiros e generais, a alegria de nossas mãos. Estocadas, mastros, tanques, barraca armada, trincheira… Com esses termos, dá até vontade de voltar aos 18 anos para uma nova apresentação ao serviço militar.
Mentira. Esperar que tropas militares troquem carícias e gozem umas sobre as outras é o mesmo que esperar nadar no Mar Morto com hemorróidas e sair ileso. Soldados têm mais o que fazer, como rezar para que seu soldo saia no final do mês (no caso dos brasileiros) ou assassinar civis iraquianos desavisados (no caso dos norte-americanos). Novamente, é muito pouco provável que entre um desses acidentes role alguma felação nas partes interessadas.
Não é o que se vê, porém, na pornografia ocidental gay. Com o passar do tempo, filmes retratam cada vez mais um mundo longínquo e improvável. Locações absurdas viram um set perfeito de filmagem e, através de caras e bocas embriagadas, todos parecem dizer: “ah, já que estamos aqui, por que não transamos?”. Ninguém carrega conflitos existenciais ou dilemas insuportáveis em sua alma. Ao contrário, os personagens são muito bem resolvidos e aparentemente já até receberam alta na psicanálise – se é que algum dia deitaram num divã que não fosse para… fazer mais sexo. Inquietações plausíveis e sensatas como “ser ou não ser passivo?”, “será que o canal anal está limpo?”, “devo cuspir nele ou pedir por uns tapas?”, “eles não estão vendo minhas estrias, estão?”, e “ai, eu não devia ter feito aquela circuncisão…” são rapidamente eliminadas do roteiro por uma simples e safada troca de olhares.
Quem consegue viver assim na humanidade?
É por isso que proponho um protesto imediato contra o cinema gay. Chega de pornografia abstrata e fraudulenta. Abaixo a ilusão de longas ereções e golden shower’s intermináveis. Quem afinal bebe tanta água assim? A partir de hoje só consumo pornografia que carregue alguma contrapartida social ou psicológica. Se não encontrar em lugar algum, passo a produzi-la. Alguém se habilita a uma parceria?
Eis o argumento: retirantes nordestinos e desnutridos (pleonasmo?) aceitam servir de objeto para dissertação de mestrado de um ambicioso ninfeto recém-graduado. O sol incendeia o céu do sertão, o drama familiar é cruel. A penúria é latente. Severino, o chefe da família, surge em contra-plongè carregando uma trouxa de pedras para o preparo de farinha. Após dois dias de extensa caminhada, foi o que ele conseguiu para o almoço. Seus nove filhos e esposa correm felizes ao seu encontro. Finalmente terão do que dar de alimento a suas verminoses e aplacar momentaneamente as dores intestinais. Nosso ninfeto mestrando, que acompanha tudo de um ângulo privilegiado, apaixona-se súbita e perdidamente por Severino. É então acometido por um tesão incontrolável e diz para si à la Scarlett O’hara: “Jamais terei fome novamente! Esse homem é meu!”. Empreende grandes esforços em sua conquista e enfim ambos fazem amor sob a luz do luar ao lado de uma ossada de bois. Mozart toca ao fundo. Quinto movimento do concerto para violino.
No dia seguinte, porém, a mulher de Severino vai tomar satisfações e, na iminência de perder seu marido, dirige-se a uma recente boca de fumo das redondezas e pede ajuda ao chefão. Na típica gentileza de um traficante que promete e cumpre, nosso ninfeto mestrando é aprisionado e passa a servir de escravo sexual para seus algozes e cobaia experimental de drogas lisérgicas. Severino, desolado e sem perspectivas, comete haraquiri com o berrante de um fazendeiro. A câmera fecha no espinho de um cacto e anuncia assim o pessimismo do nosso tempo. Fim.
E então, que tal? Será que Chi-Chi La Rue e a Belami topam produzir? O quê? Impressão minha ou acabei de ouvir um “eca”?
O Cine República não vai exibir?
A G Magazine e o Mix Brasil não farão resenhas dizendo que o filme é “tudo”?
Silvetty Montilla não vai tecer um comentário elogioso?
Não importa, a elite enrustida e intelectual há de me aplaudir em Cannes. Urso de prata, seu lugar já está reservado na minha estante. Espaço Unibanco de Cinema, aí vou eu.