Dois homens querem se casar. O chá de panela, organizado pela amiga lésbica descolada, foi na semana passada. Não há mais desculpas: eles se amam, têm uma cachorrinha de lacinho rosa, e a decoração do apartamento obedece as últimas tendências do Casa Cor. Falta agora uma celebração, uma cerimônia, um ato formal e exibicionista para arrematar suas existências excepcionais. Um casamento. Gay.
Alvoroço. Indignação. Protestos. De um lado, conservadores recalcados; de outro, liberais moderninhos. No meio, uma disputa ferrenha travestida aparentemente de liberdade civil — a união a céu aberto de pessoas do mesmo sexo. Para quê? A troco de quê?
Afinal sejamos francos: casamento é a autorização pública que a sociedade dá a alguém para fazer sexo. Um salvo-conduto para uma viagem rumo à terra da luxúria sem qualquer punição ou culpa posteriores. É a cópula institucionalizada. Um anúncio silencioso e mútuo em que metáforas, subtextos e entrelinhas fazem seu reino. “Pode beijar a noiva”, é o que se escuta — geralmente num ambiente solene — entre olhares de orgulho, senhoras de meia-idade frustradas, e solteironas frígidas em busca de um buquê. Duas bocas se tocam, sinos badalam e grãos de arroz são arremessados. Um ritual completo e desavergonhadamente disfarçado consente ali que dentro em pouco genitálias avantajadas e peitos arfantes estarão trocando fluidos entre grunhidos exóticos e lençóis reluzentes de seda.
A humanidade não poderia ter criado subterfúgio maior para escapar do embaraço representado pelo corpo e seus instintos. Os homossexuais supostamente engajados também não. Querem casar. Diante de uma instância superior (um juiz, um rabino, um pastor, um padre, não importa) e no embalo de qualquer música eletrônica sintetizada ontem numa rave de Londres. Querem casar. Com direito a torta, álbum de fotografia e daminhas de honra pueris. Querem casar. Através da permissão e admiração de todos. Querem, em suma, comprar a falcatrua que é o casamento e esconder aquilo que nos faz a todos ser parte do que somos: o sexo, o desejo, a perversão, a sordidez.
Seria de se esperar mais inteligência e coragem no discurso pró-diversidade mundo afora. Mas, como uma criança horrorizada que descobre o sangue menstrual de sua mãe, a recusa em assumir a verdade sobre nós mesmos é por demais inevitável. Não por acaso Henry Miller certa vez apontou para o tremendo esforço humano em combater os aspectos repulsivos — digamos — abaixo de nossa cintura. Se um esvoaçante véu de grinalda, um smoking risca de giz, e um bolo de glacê rançoso podem camuflar a implacável obsessão por safadeza em nós, por que não?
Gays freqüentam dark-rooms, promovem orgias em pool parties, e participam de banheirões em terminais rodoviários. Em linhas gerais (e em condições normais de temperatura e pressão atmosférica), são capazes de chegar ao fundo do poço por um naco de prazer — sem que haja nada de errado com isso. Exercer a sexualidade sem impedimentos ou disfarces, e esfregar isso na cara da civilização comportada, é talvez sua condição sine qua non e involuntária. Sempre houve algo de podre no reino da Dinamarca, e inevitavelmente cabia aos homossexuais a celebração e reivindicação dessa realidade.
Cabia.
Seria de se supor que a categoria GLBT (seja lá o que isso signifique) pudesse representar a vanguarda de nossas vontades. Sem essa de usar um altar como esconderijo para nossos propósitos obscuros e insaciáveis; sem essa de forjar um paraíso idílico como solução de nossos contratempos psicológicos e reprimidos.
Mas triste de quem precisa de heróis. De todas as manifestações contra o status quo (seja lá o que isso signifique), não há nenhuma mais inócua do que a dessa gente que ocupa cargos de cabeleireiros, estilistas e maquiadores.
Gays definitivamente não são como negros chicoteados que boicotaram linhas de ônibus no Alabama, ou como feministas raivosas que queimaram sutiãs na década de 1960. Esperar que eles deixem de comprar condicionadores anti-caspa, camisetas regatas e apartamentos nos Jardins como forma de protesto é um insulto à própria razão de ser. A negra Rosa Parks sabia o quanto seu dinheiro pode ser cobiçado pelas companhias de transporte e iniciou seu motim. Qualquer biba minimamente informada sequer cogita que seu capital paga o salário de um pedreiro homofóbico ou de uma costureira intolerante supostamente cristã.
Erguer os braços e gritar uma vez por ano na TV pode sim alavancar a carreira e vida de alguns, mas nunca de três milhões de manifestantes presentes na Avenida Paulista. Sobretudo quando as reclamações beiram o limiar da ambigüidade e trazem mais exclusão do que integração. Mais enganação do que realização. Mais — se quisermos ser antipáticos e acadêmicos — Tânatos do que Eros.
No fim das contas, talvez o grande lance dos gays seja mesmo ter um chiqueirinho anual para emitir alguns grunhidos, rebolar os músculos e, em seguida, voltar à clandestinidade. Clandestinidade, aliás, na qual há sempre o risco emocionante e iminente de um ataque por skinheads ou indivíduos que acabaram de se anular numa boda para convidados sorridentes.
Se a surra ocorrer no embalo de uma música eletrônica sintetizada ontem numa rave de Londres, e ainda por cima na calada da noite, tanto melhor.
Quem foi mesmo que chorou no filme de Mike Roth e John Henning, Até que a Morte os Separe????
Meu blog não é egotrip, nem finge preocupação com males da sociedade.
É o lugar que uso pra escrever minhas opiniões, falar do que eu gosto ou não, mostrar meus trabalhos… enfim é um espaço pessoal, mas aberto à visitação de quem quer que seja, para opinar, concordar ou criticar.
Sem pretenção de ser levado muito a sério, mas sem vocação para ser motivo de escárnio.
ADOREIIIIIII SEU BLOG
BJOS
HAIRYBEARS
http://hairybears.blogspot.com/
HEI! eu não sabia desse aqui…
ah, eu acho “egotrip” legal, rs
Adorei o seu post , realmente não tem “raça” pior que os gays
somos pervertidos,sacanas,desonestos,rudes,tudo que não presta na “boca” dos heteros mais e eles ? não são a mesma coisa ou ate pior ???
beijos kinho
ps. vocês ou você escreve maravilhosamente bem.
(=^.^=)
OLA …
TENHA UM ÓTIMO FERIADÃO
BJOKAS
Sempre o mesmo William…rs! Mordaz, incisivo, polêmico. Tirando alguns clichês e algumas “verdades absolutas” defendidas no texto, ele beira o genial. Abraços…
ahahahahaha…de conservador não tenho nada.
bom-humor é fundamental nos dias atuais.
tenha ceretza que daqui a 3 meses (no máximo) vc nem saberá quem é ela…ainda bem!!! kkkk
ps.: bacana o blog. só achei o texto um pouco estereotipado demais…mas estamso aqui é apra brincar. e vamos em frente.
Olá, obrigado pelo comentário ao meu blog. Gostei da sua sagacidade. Valeu!
Um abraço
Olá, W.O., a paixão latente que vc percebe na escrita talvez seja a proposta do blog. Como escrever novela/Júlia/Sabrina/folhetim sem explorar a paixão em todas as suas possibilidades e especificamente na escrita? Acredito também qu e elementos auto-biograficos não desqualificam a obra e que são inevitáveis, mas faço um esforço para escrever ficção. Quanto a parecer cerebral demais, não se incomode, acredito que leituras como a sua são feedbacks necessários para quem quer conquistar leitores.
Um abraço
Engraçado… Há alguns dias comentei com um amigo que sonha com casamento e filhos que ele está preso a um conceito retrógrado que nasceu da necessidade da preservação dos bens materiais entre as famílias, e que não tem a ver com sentimentos… Ele se ofendeu… Disse que ele quer aquilo que ele quer, sem influência de ninguém.
No fundo, acho válido defender os direitos civis, mas falar em “casamento” é até mostra de uma atitude retrógrada e impensada… Projetar-se dentro do sonho do Viveram felizes para sempre é de uma inocência…!
parabéns, que post bem escrito!
mas pena que ele por um lado é contra a neo-caretice dos gays, de quererem se beijar no altar, como viam nos álbuns de família, e por outro é careta demais por nao querer reconhecer os direitos civis da pessoa humana, seja ela de qual letrinha for.
aos céus o que é dos céus, a césar o que é o de césar, imagine vc pagar menos impostos quando tiver seu companheiro, imagine ter um plano de saúde em comum, imagine ter direito a férias, pensao, aposentadoria quando seu companheiro é um funcionário público, imagine a seguranca de um filho (próprio ou adotado) que poderá contar com o apoio do seu companheiro, imagine vc se sentir mais cidadao no seu dia-a-dia.
se “sempre houve algo de podre no reino da Dinamarca”, a dinamarca fez muito bem em ter sido o primeiro país a promulgar uma lei que desse o mínino de reconhecimento oficial às unioes entre pessoas do mesmo sexo. a lei entrou em vigor num raro dia de verao 7.6.1989 … o brasil está bem atrasado até em relacao à argentina e o uruguai; o brasil tem verao demais, vai ver é isso…