Não há como fugir: nossas relações são uma bagunçada herança de romances anteriores e — quiçá — de desejos secretos atuais. Ele se sentiu péssimo na última noite e fez questão de iniciar a discussão no café da manhã entre o peito de peru fatiado e a xícara de capuccino fumegante. Depois de me flagrar silenciosamente num exercício onanista na frente do computador, chegou à súbita conclusão de que ele não era mais o bastante para mim.
– Do que você está falando?! — eu retruquei, ignorando o fato de aquela cena ser um perfeito pastiche do filme de Woody Allen, Maridos e esposas. — Eu não conseguia dormir! — continuei. — Depois de ler todos os jornais europeus, acabei me entregando ao prazer fugaz da pornografia virtual — olhei fundo em seus olhos e percebi que não estava sendo convincente. Precisava ser mais efusivo. — Era uma cena tosca de dois soldados se esfregando! — arrematei, para logo em seguida perceber que havia na verdade pronunciado minha própria condenação.
– Uma cena tosca, mas eficaz o suficiente para fazê-lo gozar — ele lamentou, concluindo depois: — ao contrário de mim…
Fiquei afônico. Tinha sido nosso aniversário de quatro anos de namoro e… bem, apesar de todo aquele contentamento típico da data, eu não havia chegado “às vias de fato” na noite anterior. Ele começou com uma massagem — o que me deixou muito animado –, partiu para algo inenarrável com a língua, depois executou uns movimentos inéditos com a pélvis, mas — por alguma razão barométrica ou hormonal — eu não gozei (embora tivesse ficado excitado durante todo o período). Tudo bem, eu disse. Foi ótimo, fique tranqüilo, relaxe — minimizei.
Ele não relaxou, evidentemente. Para ele aquilo se traduzia num inesquecível confronto de dois corpos em que apenas um se saía vitorioso. Restava agora saber de quem seria o troféu: dele, com seu orgasmo completo e concreto, ou meu, com minha satisfação virtual e erma numa cena barata de um filme pornô.
Imediatamente me pus em seu lugar. Certamente a visão que ele tivera de mim na frente do computador fora patética. A que distância eu me mantinha da tela? Fazia eu caras e bocas? Revirava os olhos? Em algum momento punha a língua para fora na tentativa de me aproximar dos dois soldados que ali se divertiam? De um prazer instantâneo, de uma tentativa para chamar o sono, aquela punheta se traduziu para mim numa grotesca e quase cômica atividade indiscreta. Como se colegas de escola surgissem do nada e gargalhassem todos sob o olhar de censura do diretor implacável.
Quatro anos de relacionamento não são um piquenique, afinal de contas. Mas também não são um frio siberiano, sejamos francos. Nos primeiros momentos, a concessão é nosso segundo nome, a bandeira que levantamos sem o menor pudor, a barricada contra qual nenhum decreto é capaz.
– Não gosto de guarda-chuvas — disse-me ele certa vez para minha completa surpresa.
– O quê? Você não gosta de guarda-chuvas? — eu retruquei. — Mas no primeiro dia em que nos encontramos você atravessou abraçado comigo aquela ponte sob um!
– Era diferente — respondeu ele impávido.
O escritor norte-americano David Sedaris chega a comentar que casais, com o passar do tempo, se transformam numa previsível Parte II que ninguém em seu juízo perfeito jamais pagaria para ver. Ele tem razão. Uma conta de luz ou um aluguel só causam espanto a terceiros quando há cortes inesperados ou promotores de justiça com uma ação de despejo nas mãos. De resto, a saída é apelar para os recursos disponíveis.
Não por acaso, a fantasia é um deles. Mas presumo ter escolhido uma péssima data para lhe dar vazão. Não era minha intenção deixar nosso quarto ano de namoro marcado por uma masturbação que levanta suspeitas e frustrações. Porém, por outro lado, talvez tenha sido uma boa hora para trazer à luz o fato de que nem só de modos civilizados e racionais vive uma relação de duas pessoas. Duas pessoas que são — vez ou outra — meramente representações ritualísticas de desejos ora diversos e ora concomitantes.
E ainda: duas pessoas que — na maior parte das vezes — divertem uma à outra numa das poltronas do Havana Café enquanto alimentam planos para um futuro mais concreto e (por que não?) sensual juntas.
era eu no mackenzie ontem, fui pegar a revista Narrativa, já leu a nova? tem uma matéria minha.
adorei vc ter me chamado de modelo viu? (momento ego)..
quando me viu, pq não me chamou?
situaçaõ difícil a do post hein?
O amadurecimento do relacionamento é área desconhecida para mim, que sempre assassinei todos antes que pudessem chegar à puberdade. Mas tenho um casal de amigos que está junto há 10 anos e ambos dizem que se gostam muito mais agora do que antes, porque saber dos defeitos e deslizes e ainda assim ficar junto significa mais.
Mas, sinceramente, a preguiça de pensar no “dar e receber” do relacionamento já me deixa com preguiça: pego uma rupa no armário e saio com os amigos para poder me divertir. Sou egoísta… =)
Cês não sabem a vontade que estou de entrar aqui e fazer o “advogado do diabo.”
Mas vou fiar quieto.
Até esse nosso primeiro encontro eu vou ficar bem caladinho.
Um dia ele sai e quero ver os senhores doutores, professores da USP e aí conversaremos sobre tudo que vocês têm escrito.
Juro que sinto vontade ainda de acreditar em tudo, mas não dá mais.
(risos)
Ontem escrevi para uma leitoras do blog que os Boff(es) não me encantam mais. Nem os Leonardos.
Não virei cético.
Ao contrário.
Agora eu acredito em tudo que antes eu julgava impossível.
Vamos esperar…
Beijosssssssss cheios de admiração.
Mister Man
Beijos de Londres.
Dan
http://www.sembolso.blogspot.com
Fantástica a narrativa, péssimo o momento, infelizmente vítimas do acaso….. apenas isso… já era hora de relevar isso devido ao tempo de convivência.. aconteceu ué, amanhã é outro dia, outra noite, outra chance….. outras bronhas também virão.. é físico. Aceitar a realidade das coisas simplifica tudo.
É a típica situação que para quem faz a importância é mínima, mas para quem presencia é como se fosse um tornado seguido de terremotos e chuvas de meteoros.
Eu entendo ambos lados e honestamente o negócio é deixar o tempo passar e ser cuidadoso para não se repetir essa situação! (risos)
Boa sorte!
Alô, amigos. Daqui vos fala Dona Flor…
Desculpe…
Confundi as personagens…
Aqui é Mister Man
Passei para dizer que eu acabo de lhe atribuir o selo “Diz que até não é um mau blog.” Eu recebi o selo do Léo do Super CECG&B e tive o direito de escolher e indicar quatro outros blogs para receber o selo.
Escolhi os blogs que eu gosto de ler. Vocês sabem o quanto eu os admiro e eu tenho certeza de ter feito uma escolha justa e sincera.
Por favor passei no meu blog e veja o post sobre o assunto. Vocês também poderão indicar quatro blogs.
Talvez em breve todo mundo na net tenha o selinho. (risos) Mas enquanto pudermos atribuir isso mais pela qualidade do que pela amizade vai ser legal brincar.
O reconhecimento do nossos pares é sempre algo agradável.
Um abraço enorme,
Mister Man