Este seria um texto sobre a sobreposição do talento à beleza, já que andei assistindo A Favorita e vi que os atores do baixo escalão da novela são muito melhores que os protagonistas. Eu citaria o Chico Diaz e aquele rapaz que faz o quitandeiro da Lília Cabral como exemplos. Além de mais talentosos, a beleza deles é muito mais bonita que a do mocinho limpo de barba rala que faz par com a Mariana Ximenes. Usaria adjetivos, colocações, reproduziria ao meu modo algum conceito de Adorno sobre a Indústria Cultural, tiraria da manga uma citação da Maria Rita Kehl e faria duma pomba branca uma frase de efeito da Marilena Chauí sobre a reprodução da ideologia. Tudo isso à surdina, sem deixar a fórmula evidente. Alguns adorariam, outros detestariam e, pela qualidade de leitores desse blog, a maioria daria um backspace ao ver que não temos fotos de nu frontal, voltando pro blog dos pauzudos e se arrependendo durante 20 segundos pelo clique nesse link até retomar o ritmo frenético da punheta.
Mas hoje estou com preguiça de fazer isso. Falarei então sobre outra novela não menos boçal que a das oito.
Assim como acontece em Pantanal, posso — subjugando a capacidade de memória de médio prazo de quem lê isto aqui — fazer um breve remake do capítulo anterior. Um dos maridos foi flagrado numa gostosa bronha bem no dia do aniversário de casamento (ou namoro, nunca sei), supostamente em busca de sono. Entre um intervalo e outro, o capítulo passou por algumas divagações quase poéticas (como a coisinha do guarda-chuva em alusão ao primeiro encontro), algumas ostentações e onanismo intelectual (como os jornais europeus, o Woody Allen…). E terminou bem para uma novela: evidenciando aquela parceria sincera que sobrepõe o sexo, e deixando o leitor otimista e preparado para manter o ibope no próximo programa da emissora.
A grande diferença entre uma novela e a vida real é que, quando tudo começa a ficar muito chato na novela alguém é assassinado misteriosamente, a mocinha engravida do vilão, o autor se envolve num escândalo qualquer, ou o personagem principal descobre que matou o pai, casou com a própria mãe e, portanto, é avô de si mesmo. E depois acaba. No máximo em dez meses.
Já o enredo da vida real se arrasta. Passa meses e meses sem maiores emoções. Ao menos para quem assiste ou para um dos protagonistas que fica um pouco mais apagadinho no decorrer da trama. Ao outro (protagonista ou antagonista, dependendo da preferência do freguês) sobram as agruras de manter a guerra pelo ibope: picuinhas infantis em troca de atenção, jantares mirabolantes em dia dos namorados, crises existenciais profundérrimas que criam uma tensão suicida no espectador, ceninhas de ciúme baratas para que a dona de casa que acompanha o engodo se identifique. Além, é claro, de pequenas vinganças diárias como deixar de lavar a louça, não mais cozinhar, dormir durante uma semana na sala, fingir estar bem resolvido e nem ligar mais para a relação: quem precisa de você se tenho a mim, Astolfo Horácio? Quem agüenta uma coisa assim, meudeusdocéu?
O problema é que essa trama da realidade se estende por demais. Quatro, doze, vinte anos ou uma vida inteira. E, durante os episódios sobre crises existenciais, os protagonistas se perguntam se é natural compartilhar a vida assim, em que o desejo pelo outro muitas vezes desrespeita a individualidade de quem é desejado (mas principalmente a de quem deseja). Deixo no ar, então, a pergunta, caro telespectador: é natural?
Mas uma coisa há de se apontar: depois daquela emoção que muitos sentem ao assistir o último capítulo da novela na sexta-feira, todo mundo — além de ver a reprise no sábado — não vê a hora de chegar logo a segunda-feira para se adaptar rapidinho a uma nova rotina.
Em tempo: Ah, fala verdade… O Chico Diaz não é mais bonito que o mocinho de barba rala?
Jóia… traduziu legal muito do que penso sobre esse aspecto televisivo… aliás.. nao me preocupo ultimamente em pensar sobre isso…
Júlio, cheguei aqui linkando e não lembro o blog de origem, mas acabei lendo e adorando os textos que encontrei aqui.
O texto anterior, sobre a masturbação no dia do aniversário de vocês, faz uma análise muito rica sobre o que é uma vida a dois. Há momentos em que temos que encarar situações que são constrangedoras, mas reveladoras de um cotidiano que deve ser muito aberto pra quem vive junto.
Volto mais vezes, com certeza.
Abraços