(originalmente publicado em 02/02/2008)
Takariho Fujinuma tem 37 anos e vive em Tókio.
Takariho está desempregado e é solteiro. Quando estamos desempregados somos suscetíveis a ótimas idéias, idéias mirabolandes, péssimas idéias e ainda sobra tempo para a engenharia da vida alheia ou para a descoberta de coisas interessantes. Ao seguir passo a passo todo esse protocolo de pensamentos (cartesiano, como todo bom japonês), a coisa interessante que Takariho descobriu foi que o serviço de auxílio à lista de Tókio cobra apenas para informar números telefônicos, e não por conversar com seus clientes.
Takariho Fujinuma foi preso na última quarta-feira depois de ter ligado mais de 2.600 vezes para a Nippon Telegraph and Telephone. Foi denunciado pela empresa por obstrução do serviço de informações. “Sou solteiro e fiz isso para me esquecer da solidão. Eu me limitava a pedir que conversassem comigo e não me deixassem na espera, mas sempre, de maneira muito educada, me pediam que eu continuasse esperando”. Uma história triste.
Já Eduardo Corrêa não vive em Tókio e eu não sei quantos anos ele tem.
Ele não está desempregado, o que prova que ótimas idéias, idéias mirabolantes, péssimas idéias, a engenharia da vida alheia e a descoberta de coisas interessantes não é privilégio de quem engrossa as estatísticas do desemprego mundial. Ele é presidente da recém-criada Escola de Samba Arco Íris. Eduardo Corrêa se orgulha ao declarar que sua agremiação será a “primeira escola integrada completamente por gays, lésbicas e transexuais, e que levará ao carnaval paulista mais liberdade, criatividade e ousadia”. Eduardo combate preconceitos. Eduardo quer criar um espaço no qual a comunidade GLBT possa se divertir sem se sentir excluída. Eduardo tem boas intenções. É bem provável que o Eduardo saiba o pajubá. Temos mais um bastião.
Como presidente de Escola de Samba, Eduardo entende muito bem de carnaval. E graças a ele eu descobri que estive errado a respeito da festa de Momo por muito tempo. Não riam de mim, mas sempre achei que o carnaval só fosse menos gay que a Parada Gay. Quanta ingenuidade! Agora começo a enteder: se eu cerrar o olho bem assim, dar uma forçadinha pra mudar o foco acolá e fuçar um pouquinho nos bastidores, vou perceber que nenhum Almada, Fischer ou Mott aparecem nos créditos ao final de cada desfile! Como, meudeusdocéu, o carnaval sobreviveu até hoje sem liberdade, criatividade e ousadia? Sou um inocente! Ei, dá pra parar de rir de mim?
Enfim, o que gostaria mesmo era de dar o telefone do Eduardo Corrêa para o Takariho Fujinuma de 37 anos que vive em Tókio. Não poderão reclamar de falta de assunto: quando falarem sobre segregação, ambos se mostrarão profundos conhecedores do tema.
