(originalmente publicado em 06/05/2008)
Pra começar, um pequeno espetáculo. Personagens, cenário, mercadorias, imagens e um você mesmo (que pode muito bem ser um eu mesmo) cheio de entusiasmo e atitude. Tempo da ação: início do século XXI. Você sobreviveu a mais um dia do caos urbano — trânsito, trabalho, trânsito, falta de tempo, trânsito, de ânimo, trânsito, de estímulo, trânsito e umas duas ligações de telemarketing ativo. Enfim, vida real demais pro seu gosto. Agora é hora de relaxar nessa quinta-feira à noite que antecede um feriado prolongado. Você olha para aquela revista sob o vasinho vitoriano que dá um ar retrô à modernidade clean de sua saleta decorada com o jeitinho Tok&Stok de ser. É hora de ler a revista DOM (mas jura que vai colocá-la de volta pra não atrapalhar a decoração? Afinal, só o Dostoievsky apoiando o cinzeiro e o Caio Fernando Abreu dando vida ao abajour deixarão sua casa com uma sisudez inaceitável ao seu ciclo de amigos culturetes).
Bofescândalo na capa! Um olhar de quem quer te comer, um queixo dentro dos padrões e um abdome esculpido em mármore do inferno. Peito lisinho bem higienizado, dentes branquíssimos, poucos pelos nas coxas, um corte de cabelo bagunçado igual ao de todo mundo pra ficar diferente. Uma leve orelhinha de abano bem pensada pra dar ‘aquele’ charme (como o estrabismo da Cristiana Oliveira). Mamilos discretos e pontudinhos (delícia!). Além, é claro, do apelo arrasa quarteirão: a sunga branca! Depois de tanta informação, você acaba por reconhecer o motivo que te fez levar a revista, ‘meio que sem querer’ entre a Veja e a Bravo, sob o olhar inquisitor do jornaleiro!
Responda rápido: o que você acha do barebacking? Logo na primeira matéria você é intimado a emitir uma opinião. Formada, de preferência! Mas pense um pouco: a Revista Dom não quer demonizar nem glamorizar o sexo sem camisinha e os seus adeptos. Quer ouvir os prós e os contras e tentar enxergar de modo unidimensional os diversos ângulos dessa questão e se propõe, portanto, a gerar mais compreensão. Tudo isso em, no máximo, três páginas. Ótimo! Você está pronto pra discutir sobre essa prática nos esquentas da vida pelas próximas duas semanas.
Logo depois, pegando carona na moda muçulmana causada por livros como O Caçador de Pipas e O Livreiro de Cabul, o ghostwriter de Bruna Surfistinha – e que também assina a matéria sobre o barebacking – cosmopoliza o leitor ao revelar, em primeira mão, o que acontece na literatura mundial para as pessoas que vivem de outro modo. A bola da vez é Michel Luongo: autor de um intrigante best-seller – que é bem provável que você não leia graças à falta de tradução para o português – sobre a homossexualidade entre os leitores do alcorão. Menina! O esquenta está ficando cada vez mais promissor!
Além disso, o de sempre: matérias que ditam quais estilistas devem ser devorados, como se deve usar terno e gravata, porque o rosa-roxo-lilás é o que há, como se deve usar sandália, porque você deve se jogar em Chicago, o que você deve comer pra se desintoxicar, o que se deve usar para ter uma pele respeitável, como ser feliz sozinho, como ser feliz junto, como ser feliz com o seu pinto. Ah, tem também uma matéria sobre carros envenenados e a vida bela das baladas em alto estilo (um eufemismo pra caropracaralhoportantopãocomovopasselonge!).
Enfim, quinta à noite, véspera de feriado, hora de ser feliz com a pele e amar o pinto (que ode ser o meu, o seu, o nosso, o de quem quiser, o de quem vier…). É hora de pegar o Pálio, sonhando com um carro envenenado, e estourar o cartão numa baladinha alto estilo. E eu (que poderia muito bem ser você) nem percebi que estou a ler um número anterior da revista. Mas quem se importa, não é mesmo? Nessa nossa sociedade do espetáculo, onde o espaço político e social é substituído pela visibilidade instantânea e pela coluna social – além da fama e da beleza serem mais importantes que a cidadania – nada melhor que mais uma revista se propondo a, de outra maneira, manter os mesmos padrões. Do MESMO modo que a Cláudia, a Marie Claire, a Nova, a Capricho, a Playboy…
Um brinde à diversidade, meu bem! E se a taça for lilás, melhor ainda…
