Não dá pra fugir do que se é. Seja de maneira velada em prol da aceitação pública, ou de maneira escancarada (porém, mais sincera e verdadeira), a essência de algo ou alguém não consegue fugir por muito tempo dos olhos mais atentos de quem não se contenta com a simples manutenção do status quo.
Com o catolicismo não haveria de ser diferente. Se retomarmos a história, observamos sempre as mesmas posições arraigadas em sua estrutura: a da intolerância ao diferente, a da supremacia dos iguais.
Várias hipóteses podem ser levantadas para justificar tal mecanismo de defesa de um ‘ego’ tão enfraquecido em sua essência, como é o da igreja romana (e conseqüentemente, dos seus propagadores). Freud, aliás, muito bem o fez em obras como “Psicologia das Massas e Análise do Eu” e o “O Mal Estar na Cultura”.
Mas não se faz necessária uma análise psicanalítica aprofundada da história católica para se deparar com o obvio (embora estes estudos sejam interessantíssimos). Basta olhar os tão bem conhecidos (mas nem por isso elucidados) adventos da santa inquisição, da escravidão e do holocausto, por exemplo.
Os resultados dos julgamentos da inquisição eram, em sua maioria, a matança. Uma fogueira em praça pública com ordens do santo papa para queimar pessoas não adaptadas. A pena de morte em nome de deus. Uma leitura bíblica que era conveniente somente ao discurso cristão sombrio daqueles tempos infernais. Não bastava queimar um semelhante: havia de se louvar a expiação. O versículo onde se lia “não matarás” podia muito bem ser abafado pelo clamor vazio dos argumentos de “ela é uma bruxa”. O ocultismo era o crachá do satanista. Assim como o conhecimento, que o diga Galileu Galilei.
A conveniência também se fez presente no discurso católico ante a escravidão. Uma forma peculiar de leitura bíblica dava sustentação e apoio aos escravocratas de plantão: se deus criou o homem à sua imagem e semelhança é evidente que a criatura deveria vir com o conhecimento da benevolente existência de seu criador como item de fábrica. Deveria ser intrínseca aos filhos de deus a semente da fé monoteísta. Que raio de filho é este que desconhece a existência (e as regras) de seu pai?
Pois bem, os filhos da África eram politeístas e nunca tinham ouvido falar num deus loiro de olhos azuis. Um aba que criou o mundo em sete dias, tirou uma folga básica depois e — não por ter feito algo de errado durante a criação, mas por exclusiva culpa e desobediência de sua cria — teve que voltar como um messias e morrer preso numa cruz. Uma história tão mais absurda que a dos deuses pagãos africanos, mas que era protegida por armas de fogo e instrumentos de tortura, portanto, verdade única a ser aceita.
Se os desgraçados não sabiam da existência de deus, não poderiam ser catalogados como filhos à imagem e semelhança do bonitão. Inclusive nem se pareciam com ele. E se não eram filhos do criador, só poderiam ser criaturas servis aos homens como qualquer outro animal. Poderiam ser domesticados e escravizados com aval bíblico e papal. Eis o catolicismo dando um up à economia mundial ao abençoar um mercado infinitamente rentável em meio à crise daqueles tempos de dinheiro no umbral. Que o negro não era filho de deus era o saber católico da época. E saber, em qualquer tempo, é um exercício de poder.
Aliás, o exercício do poder (que sempre tem em vista a própria conveniência, e não o amor ao próximo como a si mesmo) se apresenta de várias formas. Das mais escandalosas às mais discretinhas. A omissão sempre foi a mais covarde manifestação de poder daquele que detém muito poder. E esse foi o papel da igreja em época de holocausto: não se manifestar. Essa avaliação pode até dispensar a arqueologia do saber ou genealogia do poder foucaltianas. Isso foi ontem! O Joseph Ratzinger estava lá. Na SS, inclusive. (Assim como sempre esteve na liderança do “Santo Oficio da Inquisição”, órgão ainda importantíssimo do Vaticano).
E como essência é essência e não dá pra se fugir do que se é, a igreja, por meio da CNBB, não poderia deixar de se mostrar mais uma vez inquisitória, conveniente e nazista. Só que dessa vez mais soft, mais ligth, sem tantas armas de fogo, chibatas ou fogueiras. Somente jogando na maciota com o poder político, portanto, muito mais perigosa e ardilosa. E essa afirmação dispensa qualquer tipo de argumento. Basta uma pessoa com um mínimo de senso crítico ler um panfleto distribuído pela CNBB em dezembro último para saber do que se trata:
O impresso é um símbolo da junção das duas formas mais baixas de dominação. A igreja, que bloqueou enquanto pode o acesso do homem ao conhecimento, com o poder político arcaico, sustentado no analfabetismo funcional de um povo que vota. E é só isso que interessa na manutenção da podridão disseminada pela ignorância: o voto da maioria. Se deve manter “a voz do povo que é de deus” desinformada para que se continue votando mal. Neste sentido é fácil demais influenciar de maneira escusa a constituição política de um estado que devia ser laico.
A maioria das pessoas não questiona mais a religião. Nem quer saber se o papa Chico Bento XVI foi nazista, se foi da Santa Inquisição ou se teve algum antepassado carrasco com uma tocha em punho. A maioria das pessoas está preocupada com o poder aquisitivo do seu contracheque. Ou em simplesmente ter ou manter tal benefício. ‘Será que vou conseguir cachear meu cabelo como o da Helena’ ou ‘vai dar pra comprar a sandália da Ivete Sangalo?’ é o máximo que se pode exigir daquele que está mortificado por uma vida globalizada, onde o sujeito não mais existe e o pensamento dá lugar a uma massa violentada e consumista. Uma missa acaba por ser nada mais que uma hora de ladainhas entre o futebol de domingo à tarde e o Fantástico (afinal, quem ainda agüenta a voz do Faustão?).
Não interessa mais a quase ninguém pensar se existem milhares de homossexuais se suicidando pelo mundo por suas famílias acreditarem que de fato eles são aberrações. Pouco importa se o bispo pernambucano excomungou a família de uma garota de nove anos de idade que engravidou de gêmeos depois de ser estuprada e abortou. Dá trabalho demais saber quantas mulheres são condenadas à pena de morte diariamente em açougues clandestinos de aborto espalhado por aí. Algumas delas grávidas de padres, inclusive.
Em épocas de Ku Klux Klan moderada a pena de morte existe e está nas mãos da igreja, que negocia os votos de um povo zumbizado ante a um poder político torpe e enfraquecido em sua raiz. Tem sido em nome de deus que pessoas espancam seus semelhantes com o argumento de “ele é uma aberração”. É clara a participação da igreja no número de mulheres que morrem em lugares imundos, sem nenhum padre por perto para lhes segurar a mão ou tentar convencê-las do perigo (ou da infelicidade) que pode ser o aborto. Não se pode lançar mão do corpo e sangue de cristo em substituição à célula-tronco embrionária para salvar a vida de alguém com leucemia.
E foi ante à pressão da CNBB — que representa essa entidade quase virtual que é a maioria católica em um estado que hipoteticamente deveria ser laico — que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se curvou e resolveu mudar o texto do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos. No texto original, o Brasil apoiaria a aprovação dos projetos de lei que descriminalizam o aborto, que dispõem sobre a união civil de pessoas do mesmo sexo e que promovem a garantia do direito de adoção por casais homoafetivos. Esses itens salvariam vidas. E graças a deus isso foi apagado do programa.
Simples assim: em nome de cristo, seleciona tudo isso e aperta o delete.
*****
Que fique claro que eu sou a favor da vida e prezo demais pela família. Mas que fique mais claro ainda que meus maiores rivais nessa empreitada, que é manter-se vivo e ser família, têm sido a igreja e o estado. E que de todas as coisas erradas que fiz até hoje, só me arrependo de duas: uma delas é de ter votado em quem não me representa. A outra, de ter sido católico.
Graças a deus, erros como este eu não cometo nunca mais.
(E para visualizar melhor o tal panfleto, clique aqui.)


vc é o MÁXIMO!!!!!
te amão!
Vixi mainha, tudo de ruim que há no Ocidente é culpa dos católicos… raça perversa hein… Se eu encontrar um deles por aí, vou ao menos dar um soco…