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Não dá pra fugir do que se é. Seja de maneira velada em prol da aceitação pública, ou de maneira escancarada (porém, mais sincera e verdadeira), a essência de algo ou alguém não consegue fugir por muito tempo dos olhos mais atentos de quem não se contenta com a simples manutenção do status quo.

Com o catolicismo não haveria de ser diferente. Se retomarmos a história, observamos sempre as mesmas posições arraigadas em sua estrutura: a da intolerância ao diferente, a da supremacia dos iguais.

Várias hipóteses podem ser levantadas para justificar tal mecanismo de defesa de um ‘ego’ tão enfraquecido em sua essência, como é o da igreja romana (e conseqüentemente, dos seus propagadores). Freud, aliás, muito bem o fez em obras como “Psicologia das Massas e Análise do Eu” e o “O Mal Estar na Cultura”.

Mas não se faz necessária uma análise psicanalítica aprofundada da história católica para se deparar com o obvio (embora estes estudos sejam interessantíssimos). Basta olhar os tão bem conhecidos (mas nem por isso elucidados) adventos da santa inquisição, da escravidão e do holocausto, por exemplo.

Os resultados dos julgamentos da inquisição eram, em sua maioria, a matança. Uma fogueira em praça pública com ordens do santo papa para queimar pessoas não adaptadas. A pena de morte em nome de deus. Uma leitura bíblica que era conveniente somente ao discurso cristão sombrio daqueles tempos infernais. Não bastava queimar um semelhante: havia de se louvar a expiação. O versículo onde se lia “não matarás” podia muito bem ser abafado pelo clamor vazio dos argumentos de “ela é uma bruxa”. O ocultismo era o crachá do satanista. Assim como o conhecimento, que o diga Galileu Galilei.

A conveniência também se fez presente no discurso católico ante a escravidão. Uma forma peculiar de leitura bíblica dava sustentação e apoio aos escravocratas de plantão: se deus criou o homem à sua imagem e semelhança é evidente que a criatura deveria vir com o conhecimento da  benevolente existência de seu criador como item de fábrica. Deveria ser intrínseca aos filhos de deus a semente da fé monoteísta. Que raio de filho é este que desconhece a existência (e as regras) de seu pai?

Pois bem, os filhos da África eram politeístas e nunca tinham ouvido falar num deus loiro de olhos azuis. Um aba que criou o mundo em sete dias, tirou uma folga básica depois e — não por ter feito algo de errado durante a criação, mas por exclusiva culpa e desobediência de sua cria — teve que voltar como um messias e morrer preso numa cruz. Uma história tão mais absurda que a dos deuses pagãos africanos, mas que era protegida por armas de fogo e instrumentos de tortura, portanto, verdade única a ser aceita.

Se os desgraçados não sabiam da existência de deus, não poderiam ser catalogados como filhos à imagem e semelhança do bonitão. Inclusive nem se pareciam com ele. E se não eram filhos do criador, só poderiam ser criaturas servis aos homens como qualquer outro animal. Poderiam ser domesticados e escravizados com aval bíblico e papal. Eis o catolicismo dando um up à economia mundial ao abençoar um mercado infinitamente rentável em meio à crise daqueles tempos de dinheiro no umbral. Que o negro não era filho de deus era o saber católico da época. E saber, em qualquer tempo, é um exercício de poder.

Aliás, o exercício do poder (que sempre tem em vista a própria conveniência, e não o amor ao próximo como a si mesmo) se apresenta de várias formas. Das mais escandalosas às mais discretinhas. A omissão sempre foi a mais covarde manifestação de poder daquele que detém muito poder. E esse foi o papel da igreja em época de holocausto: não se manifestar. Essa avaliação pode até dispensar a arqueologia do saber ou genealogia do poder foucaltianas. Isso foi ontem! O Joseph Ratzinger estava lá. Na SS, inclusive. (Assim como sempre esteve na liderança do “Santo Oficio da Inquisição”, órgão ainda importantíssimo do Vaticano).

E como essência é essência e não dá pra se fugir do que se é, a igreja, por meio da CNBB, não poderia deixar de se mostrar mais uma vez inquisitória, conveniente e nazista. Só que dessa vez mais soft, mais ligth, sem tantas armas de fogo, chibatas ou fogueiras. Somente jogando na maciota com o poder político, portanto, muito mais perigosa e ardilosa. E essa afirmação dispensa qualquer tipo de argumento. Basta uma pessoa com um mínimo de senso crítico ler um panfleto distribuído pela CNBB em dezembro último para saber do que se trata:

O impresso é um símbolo da junção das duas formas mais baixas de dominação. A igreja, que bloqueou enquanto pode o acesso do homem ao conhecimento, com o poder político arcaico, sustentado no analfabetismo funcional de um povo que vota. E é só isso que interessa na manutenção da podridão disseminada pela ignorância: o voto da maioria. Se deve manter  “a voz do povo que é de deus” desinformada para que se continue votando mal. Neste sentido é fácil demais influenciar de maneira escusa a constituição política de um estado que devia ser laico.

A maioria das pessoas não questiona mais a religião. Nem quer saber se o papa Chico Bento XVI foi nazista, se foi da Santa Inquisição ou se teve algum antepassado carrasco com uma tocha em punho. A maioria das pessoas está preocupada com o poder aquisitivo do seu contracheque. Ou em simplesmente ter ou manter tal benefício. ‘Será que vou conseguir cachear meu cabelo como o da Helena’ ou ‘vai dar pra comprar a sandália da Ivete Sangalo?’ é o máximo que se pode exigir daquele que está mortificado por uma vida globalizada, onde o sujeito não mais existe e o pensamento dá lugar a uma massa violentada e consumista. Uma missa acaba por ser nada mais que uma hora de ladainhas entre o futebol de domingo à tarde e o Fantástico (afinal, quem ainda agüenta a voz do Faustão?).

Não interessa mais a quase ninguém pensar se existem milhares de homossexuais se suicidando pelo mundo por suas famílias acreditarem que de fato eles são aberrações. Pouco importa se o bispo pernambucano excomungou a família de uma garota de nove anos de idade que engravidou de gêmeos depois de ser estuprada e abortou. Dá trabalho demais saber quantas mulheres são condenadas à pena de morte diariamente em açougues clandestinos de aborto espalhado por aí. Algumas delas grávidas de padres, inclusive.

Em épocas de Ku Klux Klan moderada a pena de morte existe e está nas mãos da igreja, que negocia os votos de um povo zumbizado ante a um poder político torpe e enfraquecido em sua raiz. Tem sido em nome de deus que pessoas espancam seus semelhantes com o argumento de “ele é uma aberração”. É clara a participação da igreja no número de mulheres que morrem em lugares imundos, sem nenhum padre por perto para lhes segurar a mão ou tentar convencê-las do perigo (ou da infelicidade) que pode ser o aborto. Não se pode lançar mão do corpo e sangue de cristo em substituição à célula-tronco embrionária para salvar a vida de alguém com leucemia.

E foi ante à pressão da CNBB — que representa essa entidade quase virtual que é a maioria católica em um estado que hipoteticamente deveria ser laico — que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se curvou e resolveu mudar o texto do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos. No texto original, o Brasil apoiaria a aprovação dos projetos de lei que descriminalizam o aborto, que dispõem sobre a união civil de pessoas do mesmo sexo e que promovem a garantia do direito de adoção por casais homoafetivos. Esses itens salvariam vidas. E graças a deus isso foi apagado do programa.

Simples assim: em nome de cristo, seleciona tudo isso e aperta o delete.

*****

Que fique claro que eu sou a favor da vida e prezo demais pela família. Mas que fique mais claro ainda que meus maiores rivais nessa empreitada, que é manter-se vivo e ser família, têm sido a igreja e o estado. E que de todas as coisas erradas que fiz até hoje, só me arrependo de duas: uma delas é de ter votado em quem não me representa. A outra, de ter sido católico.

Graças a deus, erros como este eu não cometo nunca mais.

(E para visualizar melhor o tal panfleto, clique aqui.)

algo in-comum

(originalmente publicado em 02/02/2008)


Takariho Fujinuma tem 37 anos e vive em Tókio.

Takariho está desempregado e é solteiro. Quando estamos desempregados somos suscetíveis a  ótimas idéias, idéias mirabolandes, péssimas idéias e ainda sobra tempo para a engenharia da vida alheia ou para a descoberta de coisas interessantes. Ao seguir passo a passo todo esse protocolo de pensamentos  (cartesiano, como todo bom japonês), a coisa interessante que Takariho descobriu foi que o serviço de auxílio à lista de Tókio cobra apenas para informar números telefônicos, e não por conversar com seus clientes.

Takariho Fujinuma foi preso na última quarta-feira depois de ter ligado mais de 2.600 vezes para a Nippon Telegraph and Telephone. Foi denunciado pela empresa por obstrução do serviço de informações. “Sou solteiro e fiz isso para me esquecer da solidão. Eu me limitava a pedir que conversassem comigo e não me deixassem na espera, mas sempre, de maneira muito educada, me pediam que eu continuasse esperando”. Uma história triste.

Já Eduardo Corrêa não vive em Tókio e eu não sei quantos anos ele tem.

Ele não está desempregado, o que prova que ótimas idéias, idéias mirabolantes, péssimas idéias, a engenharia da vida alheia e a descoberta de coisas interessantes não é privilégio de quem engrossa as estatísticas do desemprego mundial. Ele é presidente da recém-criada Escola de Samba Arco Íris. Eduardo Corrêa se orgulha ao declarar que sua agremiação será a “primeira escola integrada completamente por gays, lésbicas e transexuais, e que levará ao carnaval paulista mais liberdade, criatividade e ousadia”. Eduardo combate preconceitos. Eduardo quer criar um espaço no qual a comunidade GLBT possa se divertir sem se sentir excluída. Eduardo tem boas intenções. É bem provável que o Eduardo saiba o pajubá. Temos mais um bastião.

Como presidente de Escola de Samba, Eduardo entende muito bem de carnaval. E graças a ele eu descobri que estive errado a respeito da festa de Momo por muito tempo. Não riam de mim, mas sempre achei que o carnaval só fosse menos gay que a Parada Gay.  Quanta ingenuidade! Agora começo a enteder: se eu cerrar o olho bem assim, dar uma forçadinha pra mudar o foco acolá e fuçar um pouquinho nos bastidores, vou perceber que nenhum Almada,  Fischer ou Mott aparecem nos créditos ao final de cada desfile! Como, meudeusdocéu, o carnaval sobreviveu até hoje sem liberdade, criatividade e ousadia? Sou um inocente! Ei, dá pra parar de rir de mim?

Enfim, o que gostaria mesmo era de dar o telefone do Eduardo Corrêa para o Takariho Fujinuma de 37 anos que vive em Tókio. Não poderão reclamar de falta de assunto: quando falarem sobre segregação, ambos se mostrarão profundos conhecedores do tema.

Homenagem ao Centenário da Imigração Japonesa no Carnaval Paulista: faltou Pajubá!

de que modo mesmo?

(originalmente publicado em 06/05/2008)


Pra começar, um pequeno espetáculo. Personagens, cenário, mercadorias, imagens e um você mesmo (que pode muito bem ser um eu mesmo) cheio de entusiasmo e atitude. Tempo da ação: início do século XXI. Você sobreviveu a mais um dia do caos urbano — trânsito, trabalho, trânsito, falta de tempo, trânsito, de ânimo, trânsito, de estímulo, trânsito e umas duas ligações de telemarketing ativo. Enfim, vida real demais pro seu gosto. Agora é hora de relaxar nessa quinta-feira à noite que antecede um feriado prolongado. Você olha para aquela revista sob o vasinho vitoriano que dá um ar retrô à modernidade clean de sua saleta decorada com o jeitinho Tok&Stok de ser. É hora de ler a revista DOM (mas jura que vai colocá-la de volta pra não atrapalhar a decoração? Afinal, só o Dostoievsky apoiando o cinzeiro e o Caio Fernando Abreu dando vida ao abajour deixarão sua casa com uma sisudez inaceitável ao seu ciclo de amigos culturetes).

Bofescândalo na capa! Um olhar de quem quer te comer, um queixo dentro dos padrões e um abdome esculpido em mármore do inferno. Peito lisinho bem higienizado, dentes branquíssimos, poucos pelos nas coxas, um corte de cabelo bagunçado igual ao de todo mundo pra ficar diferente. Uma leve orelhinha de abano bem pensada pra dar ‘aquele’ charme (como o estrabismo da Cristiana Oliveira). Mamilos discretos e pontudinhos (delícia!). Além, é claro, do apelo arrasa quarteirão: a sunga branca! Depois de tanta informação, você acaba por reconhecer o motivo que te fez levar a revista, ‘meio que sem querer’ entre a Veja e a Bravo, sob o olhar inquisitor do jornaleiro!

Responda rápido: o que você acha do barebacking? Logo na primeira matéria você é intimado a emitir uma opinião. Formada, de preferência! Mas pense um pouco: a Revista Dom não quer demonizar nem glamorizar o sexo sem camisinha e os seus adeptos. Quer ouvir os prós e os contras e tentar enxergar de modo unidimensional os diversos ângulos dessa questão e se propõe, portanto, a gerar mais compreensão. Tudo isso em, no máximo, três páginas. Ótimo! Você está pronto pra discutir sobre essa prática nos esquentas da vida pelas próximas duas semanas.

Logo depois, pegando carona na moda muçulmana causada por livros como O Caçador de Pipas e O Livreiro de Cabul, o ghostwriter de Bruna Surfistinha – e que também assina a matéria sobre o barebacking – cosmopoliza o leitor ao revelar, em primeira mão, o que acontece na literatura mundial para as pessoas que vivem de outro modo. A bola da vez é Michel Luongo: autor de um intrigante best-seller – que é bem provável que você não leia graças à falta de tradução para o português – sobre a homossexualidade entre os leitores do alcorão. Menina! O esquenta está ficando cada vez mais promissor!

Além disso, o de sempre: matérias que ditam quais estilistas devem ser devorados, como se deve usar terno e gravata, porque o rosa-roxo-lilás é o que há, como se deve usar sandália, porque você deve se jogar em Chicago, o que você deve comer pra se desintoxicar, o que se deve usar para ter uma pele respeitável, como ser feliz sozinho, como ser feliz junto, como ser feliz com o seu pinto. Ah, tem também uma matéria sobre carros envenenados e a vida bela das baladas em alto estilo (um eufemismo pra caropracaralhoportantopãocomovopasselonge!).

Enfim, quinta à noite, véspera de feriado, hora de ser feliz com a pele e amar o pinto (que ode ser o meu, o seu, o nosso, o de quem quiser, o de quem vier…). É hora de pegar o Pálio, sonhando com um carro envenenado, e estourar o cartão numa baladinha alto estilo. E eu (que poderia muito bem ser você) nem percebi que estou a ler um número anterior da revista. Mas quem se importa, não é mesmo? Nessa nossa sociedade do espetáculo, onde o espaço político e social é substituído pela visibilidade instantânea e pela coluna social – além da fama e da beleza serem mais importantes que a cidadania – nada melhor que mais uma revista se propondo a, de outra maneira, manter os mesmos padrões. Do MESMO modo que a Cláudia, a Marie Claire, a Nova, a Capricho, a Playboy…

Um brinde à diversidade, meu bem! E se a taça for lilás, melhor ainda…

Olhei-o enquanto atravessava o portão de desembarque: alto de uma altura esguia que beirava o proporcional, olhos negros arregalados por novidades que combinavam com seus cabelos quase raspados. A apreensão em seu andar era nítida,  assim como o futuro oculto em pez que insistia em deixar nervoso um semi sorriso. É bem provável que não tenha me visto logo de cara graças à sua hipermetropia (que descobri bem depois) aliada à sua vaidade (essa descoberta bem antes) que obrigavam seus óculos a perderem-se na mochila.

Ele foi azul-marinho a princípio. Calça jeans escuras, camisa só um pouco mais clara e uma jaqueta azul. É provável que estivesse com sapatos marrons de bico arredondado — até hoje ele sempre compra sapatos marrons de bico arredondado — mas isso não posso afirmar com precisão.  Não me lembro com que roupa eu estava. Só me sei revestido de um formigamento morno sobre a pele em sobreposição  a uma palpitação jovial, de listras pollyannas assinadas por Eleanor H. Porter: um modelito deveras atípico. E ele era de um azul-marinho quase lascivo.

Preferi acompanhá-lo minutos com os olhos antes da abordagem. É bem provável que por trás de seu  olhar  assustado (e só naquele instante assustado e adulto) que lançava em todas as direções, sua pirilampice esquizofrênica herdada de Woody Allen o fazia imaginar-me um bobo, com cartaz em punho escrito seu nome, com flores nas mãos (até  com um apito talvez), e que ao sairmos do saguão de desembarque daríamos de cara com a Ponte do Brooklyn.  Em sua imaginação o Rio East de Manhattan faria cenáro a um beijo apaixonado e definitivo. Mas isso também não posso afirmar muito bem.

Talvez eu não o tenha abordado logo de imediato por cerimônia. Outrora fui religioso e depois de um tempo na religião torna-se difícil desatar o vencilho de algumas tradições. A tradição da despedida é a que mais se manifesta em mim. Pulula sem permissão.  Me despeço obcecado de tudo com  antecipação. Faço tudo em minha mente findar-se pra agora mesmo e já. Penso no fim de tudo com uma dignidade castelhana — diria Voltaire — a ponto de acreditar que o final mais plausível para minha vida seja dar cabo dela com um peteleco no pomo-de-adão (e é bem provável que eu tenha roubado essa idéia dele). Demorei na abordagem para despedir-me, medroso, de uma vida não minha. E fiz isso bem rápido por sinal, já que dez minutos depois de sua chegada não me lembrava mais da vida sem ele.

Antes do encontro precisei me certificar que estava mesmo perto desse presente ambígüo que é  a possibilidade do amor.  E tremer como vara verde era o clichê que faltava para ter a certeza do inevitável.  Surgi desengonçado (e só naquele instante eu mais do que ele) em sua frente  sem saber se estendia a mão, abraçava ou beijava. Típico desencontro de primeiros encontros. Acredito que o abracei de um abraço tão longo e tão apertado e tão saudoso, mas é bem provável que só tenha estendido a minha mão.

Oi!

E nessa hora eu quase agradeci a deus. Seria bonito. Mas eu já tinha matado deus fazia muito tempo.

 

Este seria um texto sobre a sobreposição do talento à beleza, já que andei assistindo A Favorita e vi que os atores do baixo escalão da novela são muito melhores que os protagonistas. Eu citaria o Chico Diaz e aquele rapaz que faz o quitandeiro da Lília Cabral como exemplos. Além de mais talentosos, a beleza deles é muito mais bonita que a do mocinho limpo de barba rala que faz par com a Mariana Ximenes. Usaria adjetivos, colocações, reproduziria ao meu modo algum conceito de Adorno sobre a Indústria Cultural, tiraria da manga uma citação da Maria Rita Kehl e faria duma pomba branca uma frase de efeito da Marilena Chauí sobre a reprodução da ideologia. Tudo isso à surdina, sem deixar a fórmula evidente. Alguns adorariam, outros detestariam e, pela qualidade de leitores desse blog, a maioria daria um backspace ao ver que não temos fotos de nu frontal, voltando pro blog dos pauzudos e se arrependendo durante 20 segundos pelo clique nesse link até retomar o ritmo frenético da punheta.

Mas hoje estou com preguiça de fazer isso. Falarei então sobre outra novela não menos boçal que a das oito.

Assim como acontece em Pantanal, posso — subjugando a capacidade de memória de médio prazo de quem lê isto aqui — fazer um breve remake do capítulo anterior. Um dos maridos foi flagrado numa gostosa bronha bem no dia do aniversário de casamento (ou namoro, nunca sei), supostamente em busca de sono. Entre um intervalo e outro, o capítulo passou por algumas divagações quase poéticas (como a coisinha do guarda-chuva em alusão ao primeiro encontro), algumas ostentações e onanismo intelectual (como os jornais europeus, o Woody Allen…). E terminou bem para uma novela: evidenciando aquela parceria sincera que sobrepõe o sexo, e deixando o leitor otimista e preparado para manter o ibope no próximo programa da emissora.

A grande diferença entre uma novela e a vida real é que, quando tudo começa a ficar muito chato na novela alguém é assassinado misteriosamente, a mocinha engravida do vilão, o autor se envolve num escândalo qualquer, ou o personagem principal descobre que matou o pai, casou com a própria mãe e, portanto, é avô de si mesmo. E depois acaba. No máximo em dez meses.

Já o enredo da vida real se arrasta. Passa meses e meses sem maiores emoções. Ao menos para quem assiste ou para um dos protagonistas que fica um pouco mais apagadinho no decorrer da trama. Ao outro (protagonista ou antagonista, dependendo da preferência do freguês) sobram as agruras de manter a guerra pelo ibope: picuinhas infantis em troca de atenção, jantares mirabolantes em dia dos namorados, crises existenciais profundérrimas que criam uma tensão suicida no espectador, ceninhas de ciúme baratas para que a dona de casa que acompanha o engodo se identifique. Além, é claro, de pequenas vinganças diárias como deixar de lavar a louça, não mais cozinhar, dormir durante uma semana na sala, fingir estar bem resolvido e nem ligar mais para a relação: quem precisa de você se tenho a mim, Astolfo Horácio? Quem agüenta uma coisa assim, meudeusdocéu?

O problema é que essa trama da realidade se estende por demais. Quatro, doze, vinte anos ou uma vida inteira. E, durante os episódios sobre crises existenciais, os protagonistas se perguntam se é natural compartilhar a vida assim, em que o desejo pelo outro muitas vezes desrespeita a individualidade de quem é desejado (mas principalmente a de quem deseja). Deixo no ar, então, a pergunta, caro telespectador: é natural?

Mas uma coisa há de se apontar: depois daquela emoção que muitos sentem ao assistir o último capítulo da novela na sexta-feira, todo mundo — além de ver a reprise no sábado — não vê a hora de chegar logo a segunda-feira para se adaptar rapidinho a uma nova rotina.

Que sejam só dez meses. Mas que sejam constantes.

Em tempo: Ah, fala verdade… O Chico Diaz não é mais bonito que o mocinho de barba rala?

Não há como fugir: nossas relações são uma bagunçada herança de romances anteriores e — quiçá — de desejos secretos atuais. Ele se sentiu péssimo na última noite e fez questão de iniciar a discussão no café da manhã entre o peito de peru fatiado e a xícara de capuccino fumegante. Depois de me flagrar silenciosamente num exercício onanista na frente do computador, chegou à súbita conclusão de que ele não era mais o bastante para mim.

— Do que você está falando?! — eu retruquei, ignorando o fato de aquela cena ser um perfeito pastiche do filme de Woody Allen, Maridos e esposas. — Eu não conseguia dormir! — continuei. — Depois de ler todos os jornais europeus, acabei me entregando ao prazer fugaz da pornografia virtual — olhei fundo em seus olhos e percebi que não estava sendo convincente. Precisava ser mais efusivo. — Era uma cena tosca de dois soldados se esfregando! — arrematei, para logo em seguida perceber que havia na verdade pronunciado minha própria condenação.

— Uma cena tosca, mas eficaz o suficiente para fazê-lo gozar — ele lamentou, concluindo depois: — ao contrário de mim…

Fiquei afônico. Tinha sido nosso aniversário de quatro anos de namoro e… bem, apesar de todo aquele contentamento típico da data, eu não havia chegado “às vias de fato” na noite anterior. Ele começou com uma massagem — o que me deixou muito animado –, partiu para algo inenarrável com a língua, depois executou uns movimentos inéditos com a pélvis, mas — por alguma razão barométrica ou hormonal — eu não gozei (embora tivesse ficado excitado durante todo o período). Tudo bem, eu disse. Foi ótimo, fique tranqüilo, relaxe — minimizei.

Ele não relaxou, evidentemente. Para ele aquilo se traduzia num inesquecível confronto de dois corpos em que apenas um se saía vitorioso. Restava agora saber de quem seria o troféu: dele, com seu orgasmo completo e concreto, ou meu, com minha satisfação virtual e erma numa cena barata de um filme pornô.

Imediatamente me pus em seu lugar. Certamente a visão que ele tivera de mim na frente do computador fora patética. A que distância eu me mantinha da tela? Fazia eu caras e bocas? Revirava os olhos? Em algum momento punha a língua para fora na tentativa de me aproximar dos dois soldados que ali se divertiam? De um prazer instantâneo, de uma tentativa para chamar o sono, aquela punheta se traduziu para mim numa grotesca e quase cômica atividade indiscreta. Como se colegas de escola surgissem do nada e gargalhassem todos sob o olhar de censura do diretor implacável.

Quatro anos de relacionamento não são um piquenique, afinal de contas. Mas também não são um frio siberiano, sejamos francos. Nos primeiros momentos, a concessão é nosso segundo nome, a bandeira que levantamos sem o menor pudor, a barricada contra qual nenhum decreto é capaz.

— Não gosto de guarda-chuvas — disse-me ele certa vez para minha completa surpresa.

— O quê? Você não gosta de guarda-chuvas? — eu retruquei. — Mas no primeiro dia em que nos encontramos você atravessou abraçado comigo aquela ponte sob um!

— Era diferente — respondeu ele impávido.

O escritor norte-americano David Sedaris chega a comentar que casais, com o passar do tempo, se transformam numa previsível Parte II que ninguém em seu juízo perfeito jamais pagaria para ver. Ele tem razão. Uma conta de luz ou um aluguel só causam espanto a terceiros quando há cortes inesperados ou promotores de justiça com uma ação de despejo nas mãos. De resto, a saída é apelar para os recursos disponíveis.

Não por acaso, a fantasia é um deles. Mas presumo ter escolhido uma péssima data para lhe dar vazão. Não era minha intenção deixar nosso quarto ano de namoro marcado por uma masturbação que levanta suspeitas e frustrações. Porém, por outro lado, talvez tenha sido uma boa hora para trazer à luz o fato de que nem só de modos civilizados e racionais vive uma relação de duas pessoas. Duas pessoas que são — vez ou outra — meramente representações ritualísticas de desejos ora diversos e ora concomitantes.

E ainda: duas pessoas que — na maior parte das vezes — divertem uma à outra numa das poltronas do Havana Café enquanto alimentam planos para um futuro mais concreto e (por que não?) sensual juntas.